O caso dos internados com e sem vacina: foco em dados. Por Cláudio Lenz

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Prezados, gostaria de comentar acerca do vídeo do médico João Flavio. Ele acerta em alguns pontos mas merece reparos em outros. Está absolutamente correto quanto à necessidade de dividir pela população vacinada e não vacinada. Mas, extrapola um número de 1,6 para “quase o dobro” (ruim esse tipo de comentário).

Na verdade, os números são pequenos e não permitem uma excelente análise mas pode-se fazer uma análise em termos de desvio padrão e mostra-se que o número de vacinados e não-vacinados entre os internados é equivalente dentro da incerteza. Além disso, o médico deixou de considerar os pacientes em UTI. Nesse caso, os não-vacinados é que estariam em leve vantagem, de novo dentro da incerteza. Aos meus números:

Segunda-Feira 17/01, Dados Brutos do Elias-UNIMED (excelente prática): Enfermaria: 53 adultos internados sendo 19 c/3 doses, 23 c/2 doses, 3 c/1 dose (= 45 considerados vacinados), 8 não vacinados; UTI: 11 adultos, 4 c/3 doses, 6 c/2 doses (=10 vacinados) , 1 não vacinado.

Como a população adulta vacinada em Fortaleza (segundo o que achei numa planilha do Governo do Estado) é da ordem de 87% {1}, se a probabilidade de ser internado fosse igual tanto para vacinado quanto para não-vacinado se esperaria para 45 vacinados internados, da ordem de 7 internados não-vacinados (ou 5, se consíderarmos 90% vacinado). Ao invés, vê-se 8. Note-se que para esses pequenos números, a margem no 8 é grande, da ordem de +- Raiz Quadrada(8)=2,8. Ou seja, leve desvantagem para não-vacinados mas dentro da margem de erro.

Já para não internar na UTI, para 10 vacinados internados se esperaria 1,5 (ou 1,1 se usarmos 90% vacinado) não vacinado enquanto se vê 1. Agora, levíssima margem a favor de não-vacinados, mas de novo, dentro da margem de erro, sem significância estatística. Ou seja, nesses números pequenos — vistos friamente sem considerar outros parâmetros — nenhuma vantagem nem desvantagem na vacina quanto a ir internado ou para a UTI.

No entanto há vários elementos que podem influir nessa análise (a favor ou contra vacina ou não-vacina): idades, comorbidades, tipos de vacinas, se teve ou não-covid, etc. A real ciência deve ser feita em cima dos dados sem preconceito no sentido de tentar entender os vários aspectos que poderiam mitigar essas internações e mortes. Uma coisa é o que gostaríamos de ver, a outra é o que observamos.

Aproveito a oportunidade, e como não tenho acesso ao presidente da Unimed Fortaleza, e sugiro que a imprensa solicite ao Dr. Elias que continue a divulgar esses números. Sendo um cientista acostumado a medidas de alta precisão, fui treinado a sempre olhar os DADOS BRUTOS (antes que qualquer análise fosse feita sobre eles). Se eles puderem colocar uma planilha online incluindo os outros dados mencionados (idade, vacinas, positivado anteriormente com Covid,  comorbidades, etc) seria excelente. Mas, parabéns pelo trabalho e pela divulgação transparente.

{1} Da ordem de 87% de adultos vacinados com a D2 em Fortaleza segundo dados que achei na célula JA-61 dessa planilha: https://docs.google.com/spreadsheets/d/1x4jnkDW0DaXZqRmRtx6sBEJoqa7rVlWdPNcd–9HDYQ/edit#gid=0 . Talvez com só D1 e mais D2 o número pode ir a 90%, mas a conclusão das contas acima não muda: dentro da incerteza os números são equivalentes.

Há um estudo bem detalhado e que inclui correção por grupo de idade (grupos mais jovens tem menos risco) etc, sobre a situação na Escócia em (https://publichealthscotland.scot/media/11089/22-01-12-covid19-winter_publication_report.pdf) com tabelas interessantes nas páginas 30 (positivados), 36 (hospitalização) e 42 (mortes). Algumas tabelas sugerem vantagens em 1D comparado com 2D e 3D comparado com 2D, alguns sugerem vantagem em não-vacinado, e outros, não.

Análises completas sobre esses dados não são simples, dessa forma, quanto mais diretos forem apresentados (podem incluir se quiser uma análise, mas não se deve omitir os dados originais), melhor!

Claudio Lenz Cesar é um físico e pesquisador brasileiro. Graduado pela Universidade Federal do Ceará, especialista de referência em antimatéria, é colaborador da equipe ALPHA do CERN e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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