Liquidez em tempo de coronavírus, por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Após os primeiros sinais da gravidade econômica provocada pela pandemia do coronavírus, o Ministério da Economia começou a alinhar suas primeiras armas contra o turbilhão econômico que se avizinhava. Diferimento de impostos, vouchers para os mais necessitados, aumento das linhas de créditos dos bancos públicos e assim aguardamos dia a dia novas medidas.

Apesar de importantes, essas deliberações geram fôlego e crédito em um período que o dinheiro está próximo a desaparecer, isso significa uma necessidade de aumento da liquidez dos mercados, tanto financeiro quanto na economia real. Não é hora de ser conservador em um momento onde todos os países estão adotando ideias “fora da caixa”, porém com responsabilidade.

Medidas econômicas são como remédios, se utilizadas em uma medida menor do que o necessário teremos apenas gastos sem nenhum resultado, e quando são maiores do que as necessárias, tornam-se venenos, criando até outros problemas no paciente.

Existem algumas medidas que acredito que já deveriam ser de imediato utilizadas, principalmente com o fechamento do comércio não-essencial. A população, principalmente aqueles da economia informal, precisarão de dinheiro, não de crédito, dinheiro novo e de imediato para as necessidades básicas de suas famílias. Espera-se que teremos quase 5 milhões de novos desempregados apenas esse mês, que também não terão onde conseguir novos empregos. A solução que os americanos e os ingleses estão colocando é “dinheiro”, puro e simples, enviado pelo correio ou depositado nas contas dos cidadãos, para que eles possam continuar consumindo e mantendo os mínimos padrões de vida. No caso brasileiro esses recursos podem ser utilizados por meio dos inúmeros fundos públicos que foram constituídos ao longo do tempo, seja o FGTS, o FISTEL, o FUNTTEL e outros que podem parcialmente destinar um percentual de seus recursos para “cashout” direto na população.

Os empresários já conseguem verificar que a grande maioria das instituições bancárias brasileiras pararam suas operações comerciais em vários setores. Hoje eles negociam quase todos os novos empréstimos com operações de apenas 12 meses e as taxas estão cada vez maiores, apesar da queda da SELIC. O que ocorre é uma clássica crise de liquidez e um alto risco sistêmico de inadimplência. Para garantir que os bancos possam suportar essa crise, o modelo inglês traz um importante veículo, os chamados Government Backed Loans. Esse sistema garante aos bancos privados que os novos empréstimos, até o final de 2020, tenham como garantia final a União, de modo que os bancos privados continuem a emprestar, alongar dívidas e refinanciar os empresários neste período de crise. Em caso de default, a União poderia usar os 160 bilhões de reais no caixa do BNDES para cobrir os bancos comerciais.

Para as grandes companhias aéreas e outras empresas consideradas too big to fail, os EUA, a UE e o Japão já consideram os bailouts, nos quais o tesouro aporta recursos nas empresas em troca de equity, ou seja, ações como garantias que poderão ser recompradas pelas empresas no futuro. Algo bastante impopular do ponto de vista político, mas necessário em momentos de grandes crises, como é o atual momento.

Geralmente medidas como essas são tomadas por governos populistas, e que deixam a conta para as próximas gerações. Entretanto neste caso de extrema necessidade, ou tomamos atitudes imediatas, ou não teremos próximas gerações.

A economia tem na sua base teórica a ideia da melhor alocação dos recursos escassos de uma sociedade. O coronavírus mostrou que a grande maioria dos países, principalmente no ocidente, alocou muito mal seus recursos do ponto de vista de emergências epidemiológicas. Precisamos analisar com profundidade os exemplos do Japão, da Coreia do Sul e de Cingapura para traçarmos um plano de defesa económica e sanitário para as próximas crises, que podem vir daqui 5, 10 ou 50 anos.

Outro importante aspecto é que a globalização é a melhor maneira de entender como esses efeitos podem ser mitigados no longo prazo. A cooperação internacional de bancos centrais, tesouros nacionais, órgãos de saúde internacionais e empresas privadas multinacionais estão sendo fundamentais para conter essa pandemia. O Ultranacionalismo não mostrou até agora nada que pudesse ajudar a humanidade neste momento de aflição, apenas retórica. Por outro lado a União Europeia, a Organização Mundial da Saúde, o Federal Reserve e outros órgãos que existem voltados para a cooperação internacional estão mostrando que quando as Nações estão Unidas e quando cooperam, são mais fortes.

 

 

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