
Por Fábio Campos
fabiocampos@focuspoder.com.br
O que há com o Lacen do Ceará? Em reportagem do Diário do Nordeste, o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde relata que resultados de exames para detectar Covid-19 leva entre três e 17 dias para sair. Ora, no limite da espera, é mais que a quarentena obrigatória de 14 dias. A entidade sustenta que possíveis contagiados de 68 cidades aguardam ansiosamente pelos resultados. O secretário de saúde de cada cidade, também.
Funciona assim: com os kits de exames recebidos, os municípios fazem as coletas da secreção para exame. Daí, enviam para o Lacen que daí irá detectar a presença (ou não) de material genético do vírus. Um processo que precisa ser ágil, mas não está sendo. Pelo contrário. Isso gera uma grave subnotificação e impede o funcionamento das políticas de isolamento adequadas, além, é claro de provocar imenso atraso no correto tratamento dos infectados.
O problema é que, de sua propriedade, o Lacen tem só uma máquina de diagnóstico. A UFC cedeu outra e o Labomar (UFC) mais uma. A depender do modelo, um equipamento pode finalizar 30 exames de cinco em cinco horas. Então, quanto mais equipamentos, insumos e gente trabalhando nessa área, melhores os resultados.
Focus apurou que o Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC tem outras quatro máquinas disponíveis e dezenas de profissionais capacitados e experientes no manejo dos equipamentos durante 24 horas por dia. Não se sabe ao certo por qual motivo tanto o pessoal do NPDM quanto os seus equipamentos, não estão sendo utilizados, muito embora tenham sido oferecidos ao Estado. Detalhe: há 64 leitos disponíveis no próprio NPDM.
Em uma nota de esclarecimento (veja abaixo), o Lacen diz que a Universidade Federal do Cariri e o Hemoce também estão realizando diagnósticos. E por qual motivo o Estado não conversa com a UFC para a utilização da excelente estrutura do NPDM, que conta até com leitos?
Aparentemente, está faltando diálogo mais amplo entre o Estado e a nossa mais importante instituição de ensino e pesquisa. Em conversa com o Focus, o reitor da UFC, Cândido Albuquerque, relata que o diálogo entre a instituição e o Estado caminha bem e que não há problemas.
Veja a nota de esclarecimento do Lacen-CE
Diante da crescente demanda por exames em decorrência da pandemia de coronavírus (Covid-19), a Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa), por meio do Laboratório Central de Saúde Pública do Ceará (Lacen), vem a público prestar esclarecimentos.
O exame para diagnosticar o coronavírus é um teste de biologia molecular que identifica a carga genética do vírus. A cada rodada (ciclo), com cerca de 30 testes ao mesmo tempo, são utilizados um exemplar positivo e outro negativo para controle.
Amostras de secreções das vias respiratórias (nariz e garganta) dos casos suspeitos são utilizadas para análise. Os materiais são coletados em pessoas com suspeita da doença por meio de uma sonda ou pelo swab, um tipo de haste de plástico com algodões nas pontas. Assim que chegam ao laboratório, as amostras passam por diferentes estágios de preparação e extração da carga viral das moléculas até chegar à etapa final do processo.
Desde o primeiro caso de Covid-19, o Lacen trabalha para emitir em tempo hábil os laudos dos casos suspeitos da patologia. Inicialmente, a demanda era de até 100 exames por dia. A partir do dia 9 de março, o número de casos suspeitos aumentou consideravelmente, chegando a 500 no dia 18 de março.
O empréstimo de dois equipamentos de PCR pelo NPDM e pelo Labomar, da Universidade Federal do Ceará (UFC), permitiu que o número de exames aumentasse para 320 por dia. Vale ressaltar que essa capacidade leva em conta parte dos testes inconclusivos, que chegam a 10% e precisam ser repetidos.
Quanto aos kits de teste laboratorial, os exames realizados até o momento são do tipo RT- PCR, feitos pela coleta de swab. Há perspectiva de ampliação da capacidade com a aquisição de testes rápidos (sorologia) nos próximos 15 dias.
Os kits para a coleta de swab precisam ter o meio preparado diariamente, não podendo ser armazenados. A preparação leva cerca de três horas. Atualmente, apenas o Lacen realiza esse trabalho no Estado. Os demais laboratórios enviam as amostras para empresas terceirizadas em São Paulo.
Antes do Covid-19, o Lacen distribuía uma média de 10 kits de swab por dia. Atualmente, são produzidos 1.300 kits do tipo diariamente. Por enquanto, somente a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) envia os materiais reagentes necessários para a realização dos testes. Com o intuito de ampliar a capacidade, foram adquiridos 20 mil testes, com chegadas em remessas estimadas para os dias 4, 16 e 20 de abril.
A Sesa também contará com o apoio do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce) e da Universidade Federal do Cariri (UFCA) na realização de testes de PCR. O Hemocentro do Ceará já dispõe de ambiente adequado, profissionais habilitados, cabine NBII, cedida pela Fiocruz, equipamento automatizado para extração de RNA (Prepito – Perkin Elmer) e equipamento de PCR em tempo real (7300 da Applied Biosystems).
Além disso, a Fiocruz se comprometeu a ceder mais um equipamento de PCR em tempo real para dar maior celeridade à liberação dos resultados, o que deverá acontecer até o final da próxima semana. A Faculdade de Medicina da UFCA irá disponibilizar um laboratório de diagnósticos nível 3 de segurança a profissionais da rede pública que atuam na região do Cariri.
O espaço conta com os equipamentos RT-PCR e termociclador, ambos essenciais no diagnóstico da doença. A UFCA ressalta que, em contrapartida, serão necessários profissionais especializados, kits e insumos para a detecção do vírus.
É preciso salientar que, no momento, há dificuldade para a importação de kits de reagentes voltados à detecção de SARS-COV-2, visto que a previsão de chegada dos insumos varia de 30 a 60 dias. Os kits são fundamentais para atender à demanda considerável.
O Governo do Ceará está pleiteando junto ao Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) o recebimento dos kits de reagentes para detecção de SARS-COV-2 e dos kits de extração manual de RNA (BIOGENE). A aquisição dos insumos dará celeridade ao diagnóstico de coronavírus no Estado, ampliando a capacidade de execução e, consequentemente, diminuindo o tempo de espera pelos resultados.
Além disso, a Sesa está adquirindo mais 500 mil testes rápidos, com chegada prevista para os próximos 15 dias, a depender dos trâmites de importação. Os testes estarão disponíveis em todas as unidades hospitalares estaduais, localizadas na capital e no interior, conforme critérios determinados pela Secretaria.
Dessa forma, estima-se que entre 30 e 60 dias a capacidade para a realização de exames laboratoriais será triplicada, atendendo com maior celeridade todos os municípios cearenses. Como a demanda atual é considerável, a Secretaria priorizará a realização de exames em pacientes internados em UTIs e enfermaria, em profissionais de saúde e em pessoas que vieram a óbito com suspeita da doença.







